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Crítica Curatorial
Um legado material
Para alguns artistas, a retomada do fazer artístico manual se impõe como um ato de resistência existencial perante a tecnologia. Pintar sem o recurso da inteligência artificial significa, como ocorre para Marcelo Maria de Castro, resgatar a soberania do corpo sobre o suporte e validar o erro como potência criativa. Nesse sentido, o contato do pincel com a tela gera uma poética própria.
Nesse fazer artesanal, a execução física é um ritual de materialização do invisível que tem na memória afetiva um de seus combustíveis. Ao dispensar os algoritmos previsíveis, o criador permite que o tempo do fazer caminhe no compasso orgânico do pensamento humano. A técnica, longe de ser uma prisão formal, alia-se à intuição para dar corpo ao imprevisível, podendo gerar uma desordem no espaço ordenado.
A textura da tinta, por exemplo, resgata uma dimensão sensorial que as telas digitais não conseguem ainda imitar. A capacidade de tatear a imperfeição, portanto, seria uma das maneiras de instaurar pontes com o inconsciente coletivo. A criatividade, nessa linha de raciocínio, liberta-se do tempo quase instantâneo da máquina para se consolidar como um exercício visceral orgânico e autoconhecimento em que o resgate da pintura táctil reafirma o papel do artista como artesão do sensível a construir um legado de matéria.
OSCAR D’AMBROSIO - Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.
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